domingo, 31 de março de 2013

Análise de jornais on-line variados


Sydney Morning Herald (Austrália)

Sem dúvidas isso é algo que pode ser dito do Sydney Morning Herald (SMH) é que este é um portal de notícias que se preocupa com as ferramentas básicas da organização em webdesign. Ele dispõe de sistemas de acessibilidade para deficientes visuais, um tipo de codificação que permite que programas possam, literalmente, ler em voz alta o conteúdo disponível.
Obedecendo a organização básica já vista no texto anterior para portais (últimas notícias no topo, divisão por seções de assuntos, seguidas por galerias de fotos e vídeos compostas de notícias frias), felizmente SMH vai adiante na acessibilidade da notícia e delimita bastante os espaços das editorias, evitando confusões visuais como as vistas nos portais G1 e UOL.
Quanto à interatividade, SMH também segue a lógica comum dos portais de notícias e contém apenas ferramentas de interação do tipo “trivial”, como espaços para comentários, serviços de mídias sociais e galerias de fotos e vídeos.
De forma geral, este é um portal de notícias que me agradou bastante, sendo visualmente agradável, com boa hierarquização de informações.

The China Daily

Ao acessar o The China Daily (TCD) pela primeira vez, esperava encontrar um site onde as tradições orientais fossem respeitadas, mas não encontrei respeito por intervalos, espaços de respiro, nem alguma estética diferenciada. Pelo contrário: encontrei um site com duas colunas principais de notícias, separadas verticalmente por uma menor, onde se apinham textos curtos e fotos pequenas. A organização do site não preza por encaminhar o olhas do leitor pelas notícias, mas sim o afoga em uma quantidade de conteúdo difícil de digerir.
Notam-se no site ferramentas de interação trivial, como contato via e-mail e seções de comentários. Mas, surpreendentemente, encontramos uma ferramenta não-trivial: um sistema de fórum para debater as notícias postadas no próprio site. É algo de se espantar, dado o nível de censura em torno dos grupos de notícias no país.
Não gostei da organização das notícias no site, nem me agradou visualmente. Este é um site que não recomendaria.

The New York Times

O The New York Times (NYT) tenta fazer uma transposição do jornal impresso para a internet. As fontes serifadas, o preto e branco predominante, as colunas verticais características de primeira página de um jornal e uma grande foto em destaque no topo da página, típicos do veículo impresso. O site também apresenta uma característica dos primórdios da Web que vem sendo abandonada: o tamanho pequeno da fonte, que pode tornar a leitura cansativa. Assim, surpreende que o NYT, um jornal que vem primando pela inovação do jornalismo na Web, se mantenha nesta estrutura ruim. É possível que todo seu banco de dados não esteja estruturado para uma mudança de desenho profunda; uma remodelação do banco de dados pode custar uma fortuna.
É bom ver que o NYT marcha na direção de trabalhar a interatividade com sua audiência de maneira intensa. O site é bastante ativo nas redes sociais, com comentários abertos dos autores no Twitter sobre suas peças; existem centenas de galerias de fotos, vídeos e infográficos à disposição do usuário; seções de comentários intensamente utilizadas e constantemente moderadas; enquetes e outros. O NYT faz um bom trabalho com as ferramentas triviais. Porém não existem ferramentas não-triviais.

sábado, 23 de março de 2013

Análise de Interatividade no jornalismo on-line



Sobre interatividade

Uma análise histórica diz que a palavra interatividade é uma derivação da palavra interactivity (TRINDADE & BRITO DE SOUZA)(1), descrevendo um novo conceito de computação que surgiu na década de 1960, onde qualquer função de interação era tratada como interatividade.

Mas daqui em diante vamos tratar “interatividade” nos atendo mais às raízes do conceito habitual, de “influencia ou ação recíproca entre pessoas e/ou coisas”(2). Essa é uma definição mais abrangente para a concepção de que a interatividade na Web é uma forma de comunicação em duas vias, onde um reagente adiciona novas informações às já disseminadas por um agente primeiro, havendo possibilidade de novas rodadas futuras de interação.

Pode-se dizer que as possibilidades de interação na Web crescem na mesma marcha da evolução técnica dos blocos de construção da internet (linguagens de programação, bibliotecas de código, etc.). Chats, sistemas de comentários, fóruns, shoutboxes, mídias sociais e uma miríade de outras ferramentas trazem possibilidades de modificação do entendimento de conteúdos na Web através da interatividade.

Pollyana Ferrari (apud TRINDADE & BRITO DE SOUZA) diz que

as experiências interativas são divididas entre triviais e não‐triviais. Na trivial, o receptor opta por caminhos contidos na obra/site, em um universo limitado de variáveis pré‐definidas pelo autor/jornalista/designer. Já na não‐trivial, o receptor pode acrescentar informações à base já disponível. O sistema é aberto e a obra ‐ ou o site ‐ está em constante transformação.

Desse modo, a maior parte das ferramentas de interação nos sites jornalísticos são triviais: sistemas de comentários, enquetes, especiais audiovisuais, etc.; todas essas ferramentas são feitas tendo em mente que o usuário siga um caminho predeterminado.

Na esfera das ferramentas não-triviais, cabem os chats com especialistas e a colheita de conteúdo nas mídias sociais. Por essa “colheita” entenda-se o processo em que, por exemplo, um apresentador televisivo persuade seus telespectadores a emitir opiniões marcadas com, digamos, uma hashtag no Twitter, para depois um membro da produção do programa escolher conteúdos desses a serem exibidos ao vivo no programa. Um programa de TV aberta que usa essa estratégia é “Encontro com Fátima Bernardes”, da Rede Globo.

Prosseguimos com as análises de casos.

Clarín

Clarín é o jornal principal do Grupo Clarín, o maior conglomerado de mídia da Argentina. O site do jornal se assemelha a muitos outros portais de notícias de conglomerados de mídia de massa: a interatividade é operacionalizada apenas através de ferramentas triviais, como seções de comentários, formulários de e-mail e links para mídias sociais.

A falta de ferramentas não-triviais mostra uma continuação da mentalidade da mídia de massa para a internet: toda e qualquer informação dentro dos domínios do Grupo Clarín é controlada por gatekeepers da informação, para que nada saia do controle de forma desfavorável.

El Mundo

O jornal espanhol segue os passos de seu amigo latino-americano. Não existem mecanismos de interação não-trivial e as de interação trivial limitam-se às seções de comentários e formulários de e-mails. E embora existam nas páginas das notícias botões de compartilhamento em várias redes sociais, não foram encontrados links que permitissem chegar aos próprios perfis de El Mundo, o que caracteriza um uso pobre tanto da interação com sua audiência, quanto para a disseminação de seu conteúdo.

El Gráfico

O jornal popular mexicano tem algo que o distingue dos já apresentados: sua estrutura lembra um blog. Não existem seções explicitas delimitadas, sendo apresentados no topo da página, de forma deslocada, os links “Farándula”, Viral (com as notícias mais lidas) e “Deportes”. Mas ao contrário de um blog comum, que se vale muito dos comentários de seus visitantes, não há espaço para comentários. Há a possibilidade de interação unicamente através de um formulário de e-mail do grupo detentor de El Gráfico.

Assim, fica evidente que El Gráfico simplesmente não tem ferramentas de interatividade em seu site noticioso.

El Comércio

O jornal do Peru se mostrou o mais eficiente em termos de interatividade, ainda que seja apenas da forma trivial. Há seções de comentários, links para os perfis das mídias sociais e é o único dos analisados a ter enquetes. Como ferramentas de interação trivial, nenhuma delas tem garantias de influenciar o agente inicial, mas dos analisados foi o que incorporo melhor à sua estrutura as ferramentas citadas.

Conclusão

A conclusão desta análise é que os objetos de estudo utilizam apenas ferramentas de interatividade triviais, Percebe-se uma intenção de não deixar que “as coisas escapem ao controle”. A falta de ferramentas de interação não-triviais sugere falta de recursos para lidar com a influencia da audiência sobre os produtores de conteúdo. Tanto falta de recursos de pessoal (um grande portal precisaria de uma grande equipe pronta a moderar a responder comentários específicos), quanto metodológicos. Todos os portais analisados são projetos de grupos comunicação de massa, acostumados ao modelo um-para-todos. Adaptar suas redações a um modelo mais horizontal, onde as mensagens da audiência não são visualizadas apenas pelos profissionais endereçados, mas podem ser lidas e respondidas por outras partes da audiência é algo desafiador, que muitas organizações noticiosas simplesmente se negam a considerar ou mesmo fingem não existir.

O resultado são sites que parecem deslocados no tempo em comparação com outros sites de comunicação como pro-blogs e sites de curadoria de conteúdo, como Storify. A obsolescência é o destino mais provável para veículos que se comportam dessa forma.

***

(1) TRINDADE,  Lenira Régia Diniz; BRITO DE SOUZA, Carlos Erick. A INTERATIVIDADE NO JORNALISMO ONLINE: análise do portal de O Imparcial.

(2) Dicionário Caldas-Aulete

sábado, 9 de março de 2013

Análise do jornal Correio da Manhã


Correio da Manhã
Capa da versão impressa do Correio da Manhã (Photo credit: Wikipedia)

O jornal português Correio da Manhã é um jornal que pode ser entendido como “popular”: com predominância de notícias “hard news” e temas mais voltados ao cotidiano da população. A versão impressa do jornal é feita em formato tabloide, formato este que na Europa é vinculado a jornais sensacionalistas, frequentemente contendo algum conteúdo picante. Nota-se também que o jornal faz uso do modelo clássico de portais: notícias julgadas importantes no topo da página, acompanhadas de fotos grandes; seguidas na parte de baixo por pequenas apresentações de manchetes das editorias. Pelo widget com as últimas publicações e fazendo uma comparação com outros portais semelhantes, como o Diário de Notícias, percebe-se que há uma frequência razoável de publicações.

Sendo um jornal que se apresenta como de interesse geral, a estratégia faz sentido, mas não deixa de ser conservadora. Em um meio em que os novos grandes nomes são redes de blogs especializados como Gawker Media, manter os esquemas de interesse geral faz parecer que o jornal quer manter o público cativo. A ênfase em reforçar nos leitores a leitura da versão impressa dá mais base a esta conclusão.

Então é de se esperar que os pontos futuros da análise apontem para o conservadorismo? A resposta é sim. No site o uso de multimídia é lugar comum, comparado a outros jornais: fotos profissionais ilustram matérias, vídeos não produzidos pelo próprio veículo são expostos a título de entretenimento e infográficos apenas razoáveis completam a paleta de mídia. Não há suporte há apresentações do tipo Slideshare (nem proprietárias nem externas) e não há produção própria de vídeos. Percebe-se também que o departamento de arte não é dos mais competentes.

O conservadorismo persiste nas capacidades de interação. Lugar comum entre grandes e pequenos webjornais, os meios de interação com a equipe do site são os comentários nas notícias e através de formulário de e-mail. As mídias sociais exibidas no site são apenas Twitter e Facebook, não havendo sequer uma lista dos perfis profissionais dos jornalistas. E não foi detectada interação com os seguidores nestes sites.

Mídias sociais que são usadas de maneira pobre. Os perfis do jornal tanto no Facebook quanto no Twitter são de noticiação geral. Não existem perfis específicos para as editorias, para um melhor tratamento dos tópicos e personalização de notícias.

Também não há nenhuma espécie de associação hipertextual para construção das notícias. Não existem dentro dos textos das notícias links para relatorias de agencias reguladoras nem outros sites noticiosos. Uma prática comum na TV evita citar marcas ou veículos terceiros para evitar fazer propaganda não proposital. É de se especular se não há uma continuidade desta prática da mídia de massa no site do Correio da Manhã.

Percebe-se então que o Correio da Manhã é um site “perfeitamente razoável”.  A ironia aparece quando se percebe que são justamente os sites razoáveis que estão enfrentando situação periclitante para sobreviver. Como dito antes, atores inovadores como Gawker Media e Huffington Post inovaram ao trazer para sua metodologia de criação uma rede de autores externos ao veículo e ao tornar os comentaristas construtores secundários do conteúdo.

Atentando ao que aconteceu com os veículos de imprensa na Europa e nos EUA que não inovaram antes que viessem à bancarrota, pode-se especular um futuro ruim para o site do Correio da Manhã.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Sem As Luzes do Natal


A chegada do natal é uma data especial para muitas pessoas, por motivos diferentes. Muitas gostam da atmosfera de otimismo, perspectiva de melhoras e possibilidades de mudanças. As decorações natalinas complementam este cenário, acrescentando vida às fachadas e alamedas das cidades, normalmente sisudas.

Porém cidades periféricas por todo o Brasil não terão decoração natalina pública em 2012. Normalmente financiados pelas prefeituras ou associações de comerciantes, os presépios, luzes e guirlandas, foram suprimidos com a alegação de cortes de custos.

Em Araraquara (SP), o Sindicato do Comércio Varejista (Sincomércio) informou que está priorizando os investimentos da contribuição sindical em ações estratégicas. “A diretoria decidiu que não seria tecnicamente viável a aplicação de recursos exclusivos em decorações natalinas”, informou o sindicato em nota ao G1. O Sincomércio tentou uma parceria com a prefeitura da cidade, mas não foi aceita.

Os comerciantes da cidade ficaram indignados com a decisão. “Ficamos todos de boca aberta e eu pelo menos me senti envergonhado. Araraquara é a única cidade que não tem uma iluminação especial que remeta ao Natal”, reclamou Francisco Carlos Gonçalves, proprietário de uma lanchonete. Temendo quedas nas vendas, os próprios comerciantes investiram 11 mil reais em estruturas e iluminação. Apesar do grande custo, os comerciantes sentem-se mais seguros com esta ação. “Isso não é um gasto, é um investimento e não nos arrependemos, somos diferenciados e isso chama a atenção do público no Natal”, comenta Gonçalves.

Comerciantes de Araraquara se organizaram para enfeitar um quarteirão da principal rua  do centro comercial  (Foto:Felipe Turioni/G1) 
Em Brumado (BA), o centro da cidade, que nesta época do ano está normalmente enfeitado e iluminado com temas natalinos, aparece sem nenhuma ornamentação, por motivos parecidos. A Câmara de Dirigentes Lojistas informou que está sem recursos para viabilizar os enfeites. Na prefeitura, Roni Bezerra, o encarregado de operacionalizar a decoração, informou ao Brumado Notícias que nada será feito. “Nos anos anteriores as decorações já ficavam prontas no mais tardar até a primeira semana de dezembro, mas ao que parece esse ano não teremos nenhuma decoração natalina na cidade”, disse. O prefeito, que termina seu mandato este ano, mandou cortar despesas para eliminar as dívidas da prefeitura.